Sobre Valescas e Chicos

Tenho cada vez mais preguiça de “discussões de facebook”. Tem sido frequente a minha vontade de não falar mais nada por lá. Daí, comecei a refletir sobre o motivo desse meu sentimento.

Ontem estava falando em um grupo terapêutico sobre a nossa capacidade de ouvir. Nós não ouvimos mais o outro – nós esperamos a nossa vez de falar. Existe uma enorme diferença entre essas duas coisas porque diálogos só existem onde há escuta. O que ocorre no facebook é isso: eu não reflito sobre o que você disse, não quero saber se pode fazer algum sentido. Eu só quero defender o meu ponto de vista. Nem sei se entendi direito o que você falou – eu quero é falar.  Quero levantar a minha bandeira.

Diálogos são trocas. Discussões podem ser muito ricas, desde que você esteja aberto e disposto a entender e a respeitar o posicionamento do outro. Do contrário, criam-se conversas vazias, em que surdos tagarelam, não se chegando a lugar algum. Ninguém ganha. É nessa hora que eu tiro meu time de campo. Pensando nisso, hoje resolvi falar mais.

Pessoas que, por um ou outro motivo, sofreram mais preconceitos do que a média posicionam-se quase sempre ao lado das minorias, defendendo-as com unhas e dentes. Bom, das “minorias”, na verdade. Entre aspas mesmo porque no mundo atual eu nem sempre sei o que é minoria, e o que não é (felizmente!). O que pretendo mostrar com esse texto é que, na minha opinião, esse policiamento do preconceito não é benéfico pra ninguém. Não agrega, não ajuda, não gera reflexão. Pelo contrário, motiva a raiva.

Se uma menina magra é rejeitada por um paquera, “isso acontece”, “você é boa demais pra ele”, “vai ver ele gosta de outra”, “ele está trabalhando demais”. Se uma menina gorda é rejeitada, é porque ela é gorda. Se um heterossexual é barrado em uma boate, é porque ela está lotada, é porque está se vestindo de forma inadequada, é porque não é “VIP”. Se um gay é barrado em algum lugar, é porque é gay. Se eu falo que MPB é entediante, sou revolucionária, tenho um gosto refinado, conheço culturas melhores. Se digo que funk é ruim, sou preconceituosa.

Não me apedrejem ainda: eu sei que preconceito existe. Existe preconceito com gordo, com negro, com gay, com funk e com muitas outras coisas. Porém, nem tudo é preconceito. Não é SEMPRE preconceito. O preconceito não é de TODOS. Cada vez que você considera que foi rejeitado por uma determinada característica sua, sem que isso fique completamente explícito, o juízo é SEU, não do outro.

Estudei em escolas pequenas, antes de ir para aquela que era considerada a melhor escola da cidade. Tive convívio com a “elite”, mas morava em um bairro de classe média baixa, o que me fez conviver com quem não era tão elite assim. Nunca presenciei, na minha rua, ou em alguma escola, um bullying com negros. Apesar de ter negros em minha escola, nunca ouvi “seu negro”, “seu macaco”. Talvez eu seja exceção, tenha dado sorte. Por outro lado, fui inúmeras vezes alvo de piada dos coleguinhas, que me chamavam de “branca azeda” e “leite azedo” e também “baleia”, embora nunca tenha sido considerada uma criança gorda por nenhum adulto. Preconceito contra negro é bullying, contra branco não. Afinal, minha tataravó não foi escravizada. Eu, com 5 anos, tinha que entender isso e superar. Em um país miscigenado como o Brasil, não acho que a cor da pele seja determinante EXCLUSIVO de qualquer coisa que seja. Na verdade verdadeira, minha brancura sempre foi uma exceção.

Sofri muito, mas muito com o fato de ter uma família desestruturada. Eu me sentia a última das últimas na escola porque todos tinham pai e mãe, enquanto que eu morava com a minha avó. Eu me achava inferior, achava que isso dizia algo sobre mim, sobre eu não ser tão boa. Afinal, se nem meus pais me “aguentavam”, quem iria gostar de mim? Nunca ninguém me disse isso explicitamente. Quantas vezes eu percebi um preconceito velado por conta disso? Uma ou duas. Então, de quem era o preconceito? Meu. Era eu quem me achava pior. Era eu quem me colocava nessa posição.

Então, por favor, não venham me dizer que eu sou arrogante porque nunca sofri com preconceitos porque isso não é, nem de longe, verdade. E é justamente por isso que me sinto no direito de opinar. Cada vez que um negro sai de uma entrevista de emprego dizendo que não foi contratado por ser negro, ELE reforça o estigma. Cada vez que uma gordinha diz pra uma amiga que, enquanto não emagrecer, não encontrará o amor da vida, é ELA quem reforça o estigma. Não temos que levantar bandeiras de que negros precisam de cotas porque sofrem preconceitos. Não temos que levantar bandeiras de que a Valesca Popozuda é tão pensadora como Schopenhauer (entenda). Temos que educar nossos filhos para que nem percebam a diferença entre uma coisa e outra.

Certa vez, levei um namorado recente ao aniversário de um amigo. “Meu amigo Pedro faz aniversário hoje, lá no Outback. Vamos?” “Vamos!”. Chegando lá, era uma enorme mesa de gays. O primeiro homem que nos cumprimentou fez uma brincadeira gay com o meu então namorado, o que o deixou bem sem-graça. Sentamos, e ele sussurrou no meu ouvido: “Por que você não me avisou que o Pedro era gay? Não por nada, só pra eu me preparar?”. Eu não avisei porque não penso no “Pedro, meu amigo gay”. Eu penso no “Pedro, meu amigo”. Eu nem lembrei que ele é gay. Ponto. É assim. E era a pura verdade. Eu não preciso categorizar as pessoas porque as pessoas são PESSOAS. É isso o que importa. Ele entendeu. E que bom, já que precisou conviver com o Pedro, o Felipe, o Rafael, dentre outros, por alguns anos.

Eu não preciso estampar uma camiseta que diz “sou filha de mãe solteira, mas você pode confiar em mim”. Eu tenho que me mostrar confiável, eu tenho que viver e ser, e você verá isso com o tempo. Se não quiser ver, bom… Quem perdeu foi você.

Tudo isso porque outro dia entrei em uma discussão sobre valorização da educação, e essa semana entrei em outra discussão sobre a Popozuda ser pensadora. Bem, queridos, “porrada” sempre foi palavrão pra mim. Aprendi isso com a minha mãe que, apesar de solteira e adolescente (viram? precisa disso? ou ela é só “mãe”?), era muito exigente com a minha educação. Sou gratíssima por isso e, por isso, vou sempre “levantar a bandeira” de que a educação deve ser reconhecida, valorizada e recompensada (mas esse é outro papo). Não entendo um palavrão em uma prova, não entendo uma questão que me pede pra completar um verso de música. Se não estou em uma prova de música, por que preciso ter esse conhecimento? Se você acha que minha opinião seria outra, caso a música fosse do Chico… não, não seria.

O professor e autor da questão disse que o objetivo era “levantar a discussão sobre a mídia”. Não me convenceu. Como aluna, como profissional, como futura mãe, como colega de profissão, acho que há outras formas melhores de se abordar o tema. E não é por ser uma funkeira. É por ser inadequado. Tenho lembranças de uma professora da 8ª série que nos fez interpretar “Eduardo e Mônica”, de um jeito que só ela entendia. Achei tão absurdo na época, que não esqueci até hoje, mas isso não me faz detestar Legião Urbana, pelo contrário. A diferença é que não tinha facebook em 1997.

Aí aparece um texto, supostamente escrito pela própria cantora Valesca e compartilhado por amigos. (Vejam, ela é CANTORA. Ser cantora de funk não a faz melhor ou pior, mas a sua profissão é cantora, e não pensadora, muito menos “grande”. E parem com essa bobagem de que todos somos pensadores porque você está equiparando pensante a pensador e propositalmente ocultando o juízo de valor que a palavra transmite). Bom, nesse texto, a moça diz que temos mais coisas com as quais nos preocupar, que o país tem muitos problemas, que deveríamos estar fazendo algo efetivo para melhorar o mundo.

Então, deixa ver se eu entendi. Se eu critico uma questão de prova em que tem funk envolvido, isso significa obrigatoriamente, que eu não dou a mínima pro resto do mundo, que sou uma pessoa inútil, preocupada apenas com picuinhas da internet, uma espécie de parasita burguês que persegue os fracos e oprimidos.

E a preconceituosa sou eu?

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