Psicólogo x Psiquiatra x Psicanalista – Parte 2

Featured imageO que me motivou a escrever este texto foi uma dúvida que uma pessoa veio tirar comigo. Ela era mais ou menos assim: “Depressão é doença, certo? E, sendo doença, deve ser tratada com remédio, né? E psicólogos não receitam remédio, estou errado?”

Achei as perguntas tão boas e pertinentes, que achei justo trazer as respostas para o blog.

Sim, depressão é doença*. Sim, pode ser muito grave. Entretanto, isso não significa que não possa ser tratada por psicólogos, e tampouco que só possa ser tratada com remédios.

Na maioria dos casos, os remédios tratam os sintomas. Ajudam bastante, muitas vezes só eles tiram o paciente “do fundo do poço”. Porém, o que realmente resolve o problema, em geral, é uma boa psicoterapia porque é através dela que resolvemos a causa do problema. A medicação é um empurrãozinho, mas é na terapia que a pessoa encara suas dificuldades, aprende a lidar com elas e, a partir daí, passa a não precisar mais dos remédios. Porque ninguém quer tomar remédio pro resto da vida, certo? Às vezes, isso pode ser necessário, mas nós sempre tentaremos minimizar o uso.

– Mas Paula, você falou outro dia que a depressão envolve a química cerebral. Não é só medicação que consegue alterar a química cerebral?

Não!! 🙂 Estudos já comprovam que as psicoterapias conseguem alterar a química do cérebro!

[No post anterior, você já aprendeu as principais diferenças entre psicólogo e psicanalista. Então, neste post, para facilitar, vou englobar ambos os profissionais na categoria psicoterapeutas.]

Se você me perguntasse quem você deveria procurar primeiro – um psiquiatra ou um psicoterapeuta, eu diria que tanto faz. Isso porque, independentemente da formação, um bom profissional irá fazer o seu encaminhamento para o outro, caso seja necessário. Mas eu diria também que há é mais provável que você não precise de remédios do que que você não precise de psicoterapia.

A maioria dos transtornos psicológicos/psiquiátricos pode ser tratado apenas com psicoterapia, se o paciente procurar tratamento antes de seu quadro tornar-se grave. Há transtornos que necessitam obrigatoriamente de medicação, como o Transtorno Afetivo Bipolar, mas eles são minoria. Por outro lado, muitos transtornos que poderiam ser tratados sem medicação, caso o tratamento tivesse início precoce, acabam precisando dos remédios, por já estarem muito avançados.

Estudos comprovam que, dependendo do caso, a psicoterapia pode ser tão ou mais eficaz que a medicação. Para muitos quadros, a opção mais eficaz é a combinação psicoterapia + medicação.

Sendo assim, o melhor conselho é: procure psicólogo, psiquiatra ou psicanalista, mas procure assim que os primeiros sinais surgirem. Dessa forma, a sua chance de voltar a ficar bem é maior e provavelmente você melhorará antes.  Meu segundo melhor conselho é: nunca tome apenas o remédio. Sempre o associe à psicoterapia.

Espero ter ajudado! Beijos!

*tecnicamente, a depressão é um transtorno, mas isso não faz muita diferença para o público em geral.

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Psicólogo x Psiquiatra x Psicanalista – parte 1

Featured imageMuitas pessoas tem essa dúvida. Psicólogo prescreve remédio? Psiquiatra faz terapia? Psicanalista é médico? Como saber em qual dos três devo ir?

Essa não é uma distinção muito fácil de se explicar. Vou tentar simplificar ao máximo, pra ficar tão didático quanto possível.

A Psicologia é um curso de graduação. A pessoa estuda na faculdade por 5 anos e obtém o título de psicólogo. Apenas o psicólogo pode aplicar testes psicológicos. Ele não pode prescrever remédios. A função primordial do psicólogo é tratar os problemas psicológicos/psiquiátricos através da psicoterapia. A psicoterapia é prioritariamente feita através da fala, e ela tem várias abordagens teóricas. Isso quer dizer que existem várias maneiras diferentes de se fazer Psicologia dentro do consultório. Pra ser eficiente, em geral, a psicoterapia acontece em sessões semanais de 50 minutos.

A Psiquiatria é uma especialidade da Medicina. Ou seja, o psiquiatra é um médico que fez uma especialização em Psiquiatria, depois de terminar a faculdade. Psiquiatras podem fazer psicoterapia, mas – por opção – normalmente não fazem. Eles também tratam os problemas psicológicos/psiquiátricos, mas o fazem através das medicações. As consultas com o psiquiatra costumam ser mensais, exceto no começo do tratamento, em que elas podem ser mais frequentes.

A Psicanálise é uma abordagem terapêutica, que também tem como objetivo tratar questões psicológicas/psiquiátricas, através da fala. Tanto o psicólogo como o psiquiatra podem escolher ser psicanalistas. Porém, para ser psicanalista, não é necessário ser psicólogo ou psiquiatra. É confuso, eu sei. Vou explicar mais. Para ser psicanalista, o profissional pode ser formado em qualquer curso superior (não é obrigatório ser da área da saúde), mas precisa passar por uma longa formação e ser membro de uma associação de Psicanálise. Então, seu psicanalista só pode te prescrever remédios, se ele for médico.

Hoje, no Brasil, a Psicanálise não é regulamentada como profissão independente porque, sob critérios jurídicos, ela é considerada uma especialidade da Psicologia, e por isso requer curso superior nessa área. Isso não era o que Freud queria, e tampouco a “independência” da Psicanálise é um demérito à profissão – desde que a formação na área seja feita de forma responsável e criteriosa. De qualquer forma, devido a essa especificidade, é importante que você escolha esse profissional de forma muito cuidadosa, dando preferência às indicações de pessoas em quem você confie, ou procurando uma das associações/sociedades de Psicanálise. O formato da Psicanálise também costuma ser de sessões semanais de 50 minutos.

No próximo post, explicarei o que você deve levar em consideração, para escolher que tipo de profissional procurar.

Ansiedade não engorda, não.

Featured imageSim, eu sei. Você deve estar achando este título chocante, triste, arrasador. Mas… É a pura verdade!

Vira e mexe um paciente, esperançoso, me pergunta se ansiedade engorda. Acho curioso porque, em geral, as pessoas se referem à ansiedade como uma espécie de entidade. Elas perguntam “ansiedade engorda?”, como se o simples fato de se sentir ansioso fizesse o sujeito engordar. Em geral, isso vem atrelado à expectativa de que haja uma solução mágica para os quilos a mais.

Ansiedade é uma emoção. Emoções fazem você se sentir melhor ou pior, mas elas não fazem com que suas roupas fiquem apertadas. E o que eu vou dizer a seguir talvez te deixe bravo:

O que engorda é você comer mais do que precisa.

“Não, Paula, você está errada. Quando estou muito ansioso(a), eu engordo mesmo!”

Sim, eu acredito. Muitas pessoas engordam quando estão ansiosas. Mas isso acontece porque, quando está ansioso, você ingere mais calorias, exercita-se menos, ou – o que é muito provável – ingere mais calorias E se exercita menos.

Eu aposto que, quando está ansioso, você prefere comer alimentos muito gostosos e calóricos. Afinal, nunca ouvi ninguém dizer “Nossa, tive uma crise de ansiedade hoje; devorei três pés de alface!”.

A ansiedade está relacionada a um desequilíbrio de neurotransmissores (pequenas moléculas que contribuem para o funcionamento saudável dos neurônios). Um dos neurotransmissores mais associados à ansiedade é a serotonina – já ouviu falar no “hormônio da felicidade”? Bom, a nomenclatura não está muito correta, mas a ideia sim. A serotonina nos ajuda a ficar mais tranquilos e felizes. Logo, se eu me sentir ansiosa, vou procurar alguma fonte de serotonina, certo? Mesmo sem ter consciência disso, é assim que o seu corpo age. Ele pede desesperadamente por serotonina.

E sabe quais são os alimentos que mais contribuem para a produção de serotonina?

Isso mesmo, aqueles muito calóricos. É por isso que, durante a ansiedade, dá vontade de comer chocolate, tomar sorvete, ir à churrascaria

– Tá, entendi. Então, o que devo fazer?

Você deve procurar maneiras mais saudáveis de lidar com a sua ansiedade. Em lugar de descontá-la na comida, você pode:

  • Procurar o motivo de estar ansioso – e tentar resolver a questão;
  • Começar uma atividade relaxante, como Yoga ou meditação;
  • Intensificar os exercícios físicos (eles também são uma boa fonte de neurotransmissores);
  • Optar pelo chocolate amargo (em pouca quantidade);
  • Escolher alimentos que estão associados à serotonina, mas que são mais saudáveis (consulte um nutricionista).

Existem, ainda, outras formas de diminuir a ansiedade, sem “atacar” a geladeira. Você lembra de alguma que eu não citei? Conte pra gente nos comentários! Vamos ajudar mais pessoas a se sentirem bem consigo mesmas. 🙂

Update: Uma leitora perguntou se a ansiedade não pode lentificar o metabolismo. Sim, pode. Vou falar disso em outro post, mas vamos tentar não cair nessa outra armadilha: a do “metabolismo lento”. Ninguém engorda 15 ou 20Kg apenas por causa de metabolismo lento, minha gente!

“Mas eu não preciso de psicólogo!”

Featured imageJá perdi as contas de quantas vezes ouvi isso! Infelizmente, ainda existe o estigma de que psicólogo é “coisa de doido”, “coisa pra gente problemática”, ou mesmo “pra quem não tem o que fazer”. Por outro lado, também tenho ouvido bastante – de pessoas que não são meus colegas de profissão – que “todo mundo precisa de terapia”.

Mas será mesmo que todo mundo precisa de terapia?

Claro que essa é só a minha opinião, mas não – não acho que todo mundo precise de terapia. Acredito, sim, que a maioria das pessoas se beneficiaria de algum tipo de psicoterapia. Como?

Ao fazer terapia, a pessoa vai se conhecer melhor, vai aprender mais sobre relacionamentos e sobre a vida. No momento da sessão, ela estará dando atenção total a ela mesma (coisa difícil hoje em dia) e estará também recebendo atenção integral de alguém (algo mais difícil ainda, em tempos de smartphones). Ela poderá desabafar, ouvirá outro ponto de vista sobre suas questões… Enfim, os ganhos podem ser inúmeros. Acho que você concorda comigo sobre esses benefícios.

Mas precisar é diferente. Você precisa de terapia quando o andamento da sua vida estiver sendo prejudicado pela forma como você pensa ou se sente. Você pode estar tendo problemas no casamento, no trabalho, na conta bancária, na sua saúde, entre outros. Vou dar alguns exemplos, para ficar mais claro (existem muitos outros).

Se você:

– está insatisfeito(a) em alguma área da sua vida, há tempo suficiente para acreditar que não está conseguindo resolver isso sozinho(a);

– está tendo os mesmos problemas repetidamente, mesmo que em diferentes situações;

– está com dificuldade de se relacionar com pessoas;

– está vivenciando uma perda muito sofrida ;

– está se sentindo em um “beco sem saída”;

– tem alguma dúvida muito importante (casar ou não? ter filhos? mudar de emprego? que carreira escolher?)

– sente-se perdido(a);

– sente-se excessivamente triste ou ansioso(a) (mesmo sem uma aparente causa para esses sentimentos);

– não consegue perder ou ganhar peso;

– não consegue dormir bem ou está sempre cansado(a)

– está sofrendo algum tipo de abuso, físico ou verbal.

Temos que tomar muito cuidado para não acharmos que tudo é problema. Em Psicologia, a diferença entre a saúde e a doença é, muitas vezes, a quantidade. Ficar triste é normal. Ficar tão triste que não consigo trabalhar direito, me alimentar corretamente, ou sair de casa não é normal. Sentir ansiedade é normal. Sentir tanta ansiedade que “quase morro” de falta de ar, devoro tudo o que vejo pela frente ou fico dias sem dormir não é normal.

Em síntese, pergunte-se:

Isto está atrapalhando a minha vida de alguma maneira?

Seja sincero(a) com você. Se a resposta for “sim”, então recomendo que você procure um psicólogo!

Como escolher meu psicólogo?

Featured imageDepois que publiquei o último texto, muitas pessoas vieram até mim com a mesma fala: “Puxa, eu deveria ter feito esse tipo de terapia!”. Foram pessoas que já fizeram alguma terapia antes, mas que – por algum motivo – não se identificaram com a abordagem. E terapia é assim mesmo: você precisa se identificar com o psicólogo, com a linha que ele segue, precisa se sentir bem no seu consultório e ter confiança no profissional.

Muitas vezes, você recebe uma ótima indicação, mas não simpatiza com a pessoa. Ou escuta maravilhas de uma abordagem terapêutica, mas com você ela simplesmente não funciona. Por que isso acontece? Porque nós somos diferentes. Em muitos aspectos da vida, mas principalmente em Psicologia, nós precisamos considerar a particularidade de cada um. É por isso que o seu amigo não pode nem pensar em ir ao mesmo consultório por meses a fio, enquanto que a sua amiga frequenta a psicanalista dela há anos e não a troca por nada. Da mesma forma, um paciente pode ter calafrios só de pensar em ser submetido a testes psicológicos, enquanto que outro pode adorar essa forma objetiva de encarar seus problemas.

“E como eu sei qual serve pra mim?”

Testando.

Vá em um, veja se gosta. Pergunte, pergunte, pergunte. Vá em outro. Pergunte, pergunte, pergunte.

Aposto que a maioria de vocês nunca perguntou ao seu psicólogo qual é a linha teórica que ele segue. Pergunte! Na primeira sessão, pergunte qual é o método de trabalho, o que você pode esperar do tratamento, qual é a proposta dele. Nenhum psicólogo sério irá te dar um prazo para finalizar o seu tratamento porque, como eu disse antes, precisamos considerar a particularidade de cada um. Cada caso é um caso, e levará o tempo necessário para ele. Porém, ele poderá te dizer de que forma vocês trabalharão juntos. Você saberá o que esperar, em lugar de ir para a terapia, esperando que um dia uma mágica aconteça, como é o caso de muitas pessoas. Além disso, saber de que maneira ele trabalha te ajuda a identificar se aquilo combina com você.

Se não der certo com o primeiro psicólogo em que você for, não pense que não dará certo com nenhum. São muitos os fatores que interferem no processo terapêutico e, por serem fatores subjetivos, é muito difícil controlá-los. Você apenas precisa encontrar o profissional certo pra você. Como eu sigo a linha da Terapia Cognitivo-Comportamental, é dela que falo mais nos meus textos, mas isso não significa que não haja outras opções. A Psicologia é muito ampla, procure o que te deixa à vontade. De novo: pergunte!

E lembre-se:

A terapia é um trabalho árduo, que depende diretamente do paciente. Não espere que algum psicólogo simplesmente resolva os seus problemas – o que nós fazemos é guiar o paciente, auxiliá-lo nas próprias descobertas. Permita-se tentar. A Psicologia tem muito a oferecer, provavelmente você vai se surpreender.

No próximo texto, responderei à pergunta: “Todo mundo precisa de terapia?”. Aguarde!

O que é “Terapia Cognitivo-Comportamental”?

Featured imageA Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das poucas linhas da Psicologia que tem a eficácia cientificamente comprovada para diversos transtornos psicológicos. Por isso, tem sido cada vez mais procurada por pacientes e recomendada por profissionais de diversas áreas.

Como ela funciona?

A TCC é mais breve do que a maioria das terapias e é focada no presente. Isso não significa que falar do passado é proibido – pelo contrário – mas que privilegiamos a solução dos problemas atuais do paciente. Além disso, é uma terapia estruturada: estabelecemos metas, traçamos um plano de ação e definimos tarefas – tudo em conjunto com o paciente. Ah, claro! Porque a TCC é uma terapia colaborativa. Não, não tem solução mágica – você vai precisar arregaçar suas mangas e trabalhar comigo! 🙂

Tá, mas me explica esse nome…

Costumo brincar com meus pacientes que a TCC tem um nome complicado, pra explicar algo simples. O termo “cognitivo” refere-se aos seus pensamentos e “comportamental”… Sim, claro: a comportamentos! Essa teoria trabalha com a ideia de que nossos pensamentos são responsáveis pelas emoções que sentimos e, por sua vez, essas emoções geram os nossos comportamentos.

 Pensamento ➜ Emoção ➜ Comportamento

A maioria das pessoas procura a terapia quando algum comportamento seu está atrapalhando a sua vida. Ela pode estar incomodada por estar comendo demais, por brigas com um familiar, por não conseguir sair de casa… Todos esses comportamentos têm por trás uma crença, um pensamento. E, se o comportamento está desajustado, é porque esse pensamento está inadequado.

É aí que a TCC entra.

Ela ajuda as pessoas a identificarem esses pensamentos inadequados e a modificá-los, a fim de se sentirem melhor e alcançarem comportamentos mais funcionais. Como disse antes, a ênfase é resolver um problema e gerar mudança de comportamento.

Quer um exemplo?

Ana pensa “minha vida não tem solução”. Fica triste, ansiosa, e “ataca” a geladeira. O terapeuta de Ana irá ajudá-la a questionar esse seu pensamento: Será mesmo que sua vida não tem solução? Quais as provas reais que Ana tem, de que esse pensamento é verdadeiro? Se, juntos, eles encontrarem uma única possibilidade de melhorar a vida da moça, então está provado que seu pensamento não é realista – e precisa ser modificado. Quando Ana substituir esse pensamento por “minha vida pode ter solução”, ela ficará menos triste e ansiosa e, consequentemente, terá menos vontade de comer. É claro que, a partir daí, traçaremos objetivos para que Ana efetivamente melhore a sua vida.

Este é apenas um exemplo, mas podemos trabalhar em muitas frentes. Desde depressão até problemas conjugais, passando pelos citados transtornos alimentares, ataques de pânico, problemas de autoestima e muitos outros.

Espero que tenha conseguido mostrar pra vocês, de forma clara e objetiva, um pouquinho dessa abordagem que tanto me encanta. Deixem suas dúvidas e comentários!

Sobre Valescas e Chicos

Tenho cada vez mais preguiça de “discussões de facebook”. Tem sido frequente a minha vontade de não falar mais nada por lá. Daí, comecei a refletir sobre o motivo desse meu sentimento.

Ontem estava falando em um grupo terapêutico sobre a nossa capacidade de ouvir. Nós não ouvimos mais o outro – nós esperamos a nossa vez de falar. Existe uma enorme diferença entre essas duas coisas porque diálogos só existem onde há escuta. O que ocorre no facebook é isso: eu não reflito sobre o que você disse, não quero saber se pode fazer algum sentido. Eu só quero defender o meu ponto de vista. Nem sei se entendi direito o que você falou – eu quero é falar.  Quero levantar a minha bandeira.

Diálogos são trocas. Discussões podem ser muito ricas, desde que você esteja aberto e disposto a entender e a respeitar o posicionamento do outro. Do contrário, criam-se conversas vazias, em que surdos tagarelam, não se chegando a lugar algum. Ninguém ganha. É nessa hora que eu tiro meu time de campo. Pensando nisso, hoje resolvi falar mais.

Pessoas que, por um ou outro motivo, sofreram mais preconceitos do que a média posicionam-se quase sempre ao lado das minorias, defendendo-as com unhas e dentes. Bom, das “minorias”, na verdade. Entre aspas mesmo porque no mundo atual eu nem sempre sei o que é minoria, e o que não é (felizmente!). O que pretendo mostrar com esse texto é que, na minha opinião, esse policiamento do preconceito não é benéfico pra ninguém. Não agrega, não ajuda, não gera reflexão. Pelo contrário, motiva a raiva.

Se uma menina magra é rejeitada por um paquera, “isso acontece”, “você é boa demais pra ele”, “vai ver ele gosta de outra”, “ele está trabalhando demais”. Se uma menina gorda é rejeitada, é porque ela é gorda. Se um heterossexual é barrado em uma boate, é porque ela está lotada, é porque está se vestindo de forma inadequada, é porque não é “VIP”. Se um gay é barrado em algum lugar, é porque é gay. Se eu falo que MPB é entediante, sou revolucionária, tenho um gosto refinado, conheço culturas melhores. Se digo que funk é ruim, sou preconceituosa.

Não me apedrejem ainda: eu sei que preconceito existe. Existe preconceito com gordo, com negro, com gay, com funk e com muitas outras coisas. Porém, nem tudo é preconceito. Não é SEMPRE preconceito. O preconceito não é de TODOS. Cada vez que você considera que foi rejeitado por uma determinada característica sua, sem que isso fique completamente explícito, o juízo é SEU, não do outro.

Estudei em escolas pequenas, antes de ir para aquela que era considerada a melhor escola da cidade. Tive convívio com a “elite”, mas morava em um bairro de classe média baixa, o que me fez conviver com quem não era tão elite assim. Nunca presenciei, na minha rua, ou em alguma escola, um bullying com negros. Apesar de ter negros em minha escola, nunca ouvi “seu negro”, “seu macaco”. Talvez eu seja exceção, tenha dado sorte. Por outro lado, fui inúmeras vezes alvo de piada dos coleguinhas, que me chamavam de “branca azeda” e “leite azedo” e também “baleia”, embora nunca tenha sido considerada uma criança gorda por nenhum adulto. Preconceito contra negro é bullying, contra branco não. Afinal, minha tataravó não foi escravizada. Eu, com 5 anos, tinha que entender isso e superar. Em um país miscigenado como o Brasil, não acho que a cor da pele seja determinante EXCLUSIVO de qualquer coisa que seja. Na verdade verdadeira, minha brancura sempre foi uma exceção.

Sofri muito, mas muito com o fato de ter uma família desestruturada. Eu me sentia a última das últimas na escola porque todos tinham pai e mãe, enquanto que eu morava com a minha avó. Eu me achava inferior, achava que isso dizia algo sobre mim, sobre eu não ser tão boa. Afinal, se nem meus pais me “aguentavam”, quem iria gostar de mim? Nunca ninguém me disse isso explicitamente. Quantas vezes eu percebi um preconceito velado por conta disso? Uma ou duas. Então, de quem era o preconceito? Meu. Era eu quem me achava pior. Era eu quem me colocava nessa posição.

Então, por favor, não venham me dizer que eu sou arrogante porque nunca sofri com preconceitos porque isso não é, nem de longe, verdade. E é justamente por isso que me sinto no direito de opinar. Cada vez que um negro sai de uma entrevista de emprego dizendo que não foi contratado por ser negro, ELE reforça o estigma. Cada vez que uma gordinha diz pra uma amiga que, enquanto não emagrecer, não encontrará o amor da vida, é ELA quem reforça o estigma. Não temos que levantar bandeiras de que negros precisam de cotas porque sofrem preconceitos. Não temos que levantar bandeiras de que a Valesca Popozuda é tão pensadora como Schopenhauer (entenda). Temos que educar nossos filhos para que nem percebam a diferença entre uma coisa e outra.

Certa vez, levei um namorado recente ao aniversário de um amigo. “Meu amigo Pedro faz aniversário hoje, lá no Outback. Vamos?” “Vamos!”. Chegando lá, era uma enorme mesa de gays. O primeiro homem que nos cumprimentou fez uma brincadeira gay com o meu então namorado, o que o deixou bem sem-graça. Sentamos, e ele sussurrou no meu ouvido: “Por que você não me avisou que o Pedro era gay? Não por nada, só pra eu me preparar?”. Eu não avisei porque não penso no “Pedro, meu amigo gay”. Eu penso no “Pedro, meu amigo”. Eu nem lembrei que ele é gay. Ponto. É assim. E era a pura verdade. Eu não preciso categorizar as pessoas porque as pessoas são PESSOAS. É isso o que importa. Ele entendeu. E que bom, já que precisou conviver com o Pedro, o Felipe, o Rafael, dentre outros, por alguns anos.

Eu não preciso estampar uma camiseta que diz “sou filha de mãe solteira, mas você pode confiar em mim”. Eu tenho que me mostrar confiável, eu tenho que viver e ser, e você verá isso com o tempo. Se não quiser ver, bom… Quem perdeu foi você.

Tudo isso porque outro dia entrei em uma discussão sobre valorização da educação, e essa semana entrei em outra discussão sobre a Popozuda ser pensadora. Bem, queridos, “porrada” sempre foi palavrão pra mim. Aprendi isso com a minha mãe que, apesar de solteira e adolescente (viram? precisa disso? ou ela é só “mãe”?), era muito exigente com a minha educação. Sou gratíssima por isso e, por isso, vou sempre “levantar a bandeira” de que a educação deve ser reconhecida, valorizada e recompensada (mas esse é outro papo). Não entendo um palavrão em uma prova, não entendo uma questão que me pede pra completar um verso de música. Se não estou em uma prova de música, por que preciso ter esse conhecimento? Se você acha que minha opinião seria outra, caso a música fosse do Chico… não, não seria.

O professor e autor da questão disse que o objetivo era “levantar a discussão sobre a mídia”. Não me convenceu. Como aluna, como profissional, como futura mãe, como colega de profissão, acho que há outras formas melhores de se abordar o tema. E não é por ser uma funkeira. É por ser inadequado. Tenho lembranças de uma professora da 8ª série que nos fez interpretar “Eduardo e Mônica”, de um jeito que só ela entendia. Achei tão absurdo na época, que não esqueci até hoje, mas isso não me faz detestar Legião Urbana, pelo contrário. A diferença é que não tinha facebook em 1997.

Aí aparece um texto, supostamente escrito pela própria cantora Valesca e compartilhado por amigos. (Vejam, ela é CANTORA. Ser cantora de funk não a faz melhor ou pior, mas a sua profissão é cantora, e não pensadora, muito menos “grande”. E parem com essa bobagem de que todos somos pensadores porque você está equiparando pensante a pensador e propositalmente ocultando o juízo de valor que a palavra transmite). Bom, nesse texto, a moça diz que temos mais coisas com as quais nos preocupar, que o país tem muitos problemas, que deveríamos estar fazendo algo efetivo para melhorar o mundo.

Então, deixa ver se eu entendi. Se eu critico uma questão de prova em que tem funk envolvido, isso significa obrigatoriamente, que eu não dou a mínima pro resto do mundo, que sou uma pessoa inútil, preocupada apenas com picuinhas da internet, uma espécie de parasita burguês que persegue os fracos e oprimidos.

E a preconceituosa sou eu?