Psicólogo x Psiquiatra x Psicanalista – Parte 2

Featured imageO que me motivou a escrever este texto foi uma dúvida que uma pessoa veio tirar comigo. Ela era mais ou menos assim: “Depressão é doença, certo? E, sendo doença, deve ser tratada com remédio, né? E psicólogos não receitam remédio, estou errado?”

Achei as perguntas tão boas e pertinentes, que achei justo trazer as respostas para o blog.

Sim, depressão é doença*. Sim, pode ser muito grave. Entretanto, isso não significa que não possa ser tratada por psicólogos, e tampouco que só possa ser tratada com remédios.

Na maioria dos casos, os remédios tratam os sintomas. Ajudam bastante, muitas vezes só eles tiram o paciente “do fundo do poço”. Porém, o que realmente resolve o problema, em geral, é uma boa psicoterapia porque é através dela que resolvemos a causa do problema. A medicação é um empurrãozinho, mas é na terapia que a pessoa encara suas dificuldades, aprende a lidar com elas e, a partir daí, passa a não precisar mais dos remédios. Porque ninguém quer tomar remédio pro resto da vida, certo? Às vezes, isso pode ser necessário, mas nós sempre tentaremos minimizar o uso.

– Mas Paula, você falou outro dia que a depressão envolve a química cerebral. Não é só medicação que consegue alterar a química cerebral?

Não!! 🙂 Estudos já comprovam que as psicoterapias conseguem alterar a química do cérebro!

[No post anterior, você já aprendeu as principais diferenças entre psicólogo e psicanalista. Então, neste post, para facilitar, vou englobar ambos os profissionais na categoria psicoterapeutas.]

Se você me perguntasse quem você deveria procurar primeiro – um psiquiatra ou um psicoterapeuta, eu diria que tanto faz. Isso porque, independentemente da formação, um bom profissional irá fazer o seu encaminhamento para o outro, caso seja necessário. Mas eu diria também que há é mais provável que você não precise de remédios do que que você não precise de psicoterapia.

A maioria dos transtornos psicológicos/psiquiátricos pode ser tratado apenas com psicoterapia, se o paciente procurar tratamento antes de seu quadro tornar-se grave. Há transtornos que necessitam obrigatoriamente de medicação, como o Transtorno Afetivo Bipolar, mas eles são minoria. Por outro lado, muitos transtornos que poderiam ser tratados sem medicação, caso o tratamento tivesse início precoce, acabam precisando dos remédios, por já estarem muito avançados.

Estudos comprovam que, dependendo do caso, a psicoterapia pode ser tão ou mais eficaz que a medicação. Para muitos quadros, a opção mais eficaz é a combinação psicoterapia + medicação.

Sendo assim, o melhor conselho é: procure psicólogo, psiquiatra ou psicanalista, mas procure assim que os primeiros sinais surgirem. Dessa forma, a sua chance de voltar a ficar bem é maior e provavelmente você melhorará antes.  Meu segundo melhor conselho é: nunca tome apenas o remédio. Sempre o associe à psicoterapia.

Espero ter ajudado! Beijos!

*tecnicamente, a depressão é um transtorno, mas isso não faz muita diferença para o público em geral.

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“Mas eu não preciso de psicólogo!”

Featured imageJá perdi as contas de quantas vezes ouvi isso! Infelizmente, ainda existe o estigma de que psicólogo é “coisa de doido”, “coisa pra gente problemática”, ou mesmo “pra quem não tem o que fazer”. Por outro lado, também tenho ouvido bastante – de pessoas que não são meus colegas de profissão – que “todo mundo precisa de terapia”.

Mas será mesmo que todo mundo precisa de terapia?

Claro que essa é só a minha opinião, mas não – não acho que todo mundo precise de terapia. Acredito, sim, que a maioria das pessoas se beneficiaria de algum tipo de psicoterapia. Como?

Ao fazer terapia, a pessoa vai se conhecer melhor, vai aprender mais sobre relacionamentos e sobre a vida. No momento da sessão, ela estará dando atenção total a ela mesma (coisa difícil hoje em dia) e estará também recebendo atenção integral de alguém (algo mais difícil ainda, em tempos de smartphones). Ela poderá desabafar, ouvirá outro ponto de vista sobre suas questões… Enfim, os ganhos podem ser inúmeros. Acho que você concorda comigo sobre esses benefícios.

Mas precisar é diferente. Você precisa de terapia quando o andamento da sua vida estiver sendo prejudicado pela forma como você pensa ou se sente. Você pode estar tendo problemas no casamento, no trabalho, na conta bancária, na sua saúde, entre outros. Vou dar alguns exemplos, para ficar mais claro (existem muitos outros).

Se você:

– está insatisfeito(a) em alguma área da sua vida, há tempo suficiente para acreditar que não está conseguindo resolver isso sozinho(a);

– está tendo os mesmos problemas repetidamente, mesmo que em diferentes situações;

– está com dificuldade de se relacionar com pessoas;

– está vivenciando uma perda muito sofrida ;

– está se sentindo em um “beco sem saída”;

– tem alguma dúvida muito importante (casar ou não? ter filhos? mudar de emprego? que carreira escolher?)

– sente-se perdido(a);

– sente-se excessivamente triste ou ansioso(a) (mesmo sem uma aparente causa para esses sentimentos);

– não consegue perder ou ganhar peso;

– não consegue dormir bem ou está sempre cansado(a)

– está sofrendo algum tipo de abuso, físico ou verbal.

Temos que tomar muito cuidado para não acharmos que tudo é problema. Em Psicologia, a diferença entre a saúde e a doença é, muitas vezes, a quantidade. Ficar triste é normal. Ficar tão triste que não consigo trabalhar direito, me alimentar corretamente, ou sair de casa não é normal. Sentir ansiedade é normal. Sentir tanta ansiedade que “quase morro” de falta de ar, devoro tudo o que vejo pela frente ou fico dias sem dormir não é normal.

Em síntese, pergunte-se:

Isto está atrapalhando a minha vida de alguma maneira?

Seja sincero(a) com você. Se a resposta for “sim”, então recomendo que você procure um psicólogo!

O que é “Terapia Cognitivo-Comportamental”?

Featured imageA Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das poucas linhas da Psicologia que tem a eficácia cientificamente comprovada para diversos transtornos psicológicos. Por isso, tem sido cada vez mais procurada por pacientes e recomendada por profissionais de diversas áreas.

Como ela funciona?

A TCC é mais breve do que a maioria das terapias e é focada no presente. Isso não significa que falar do passado é proibido – pelo contrário – mas que privilegiamos a solução dos problemas atuais do paciente. Além disso, é uma terapia estruturada: estabelecemos metas, traçamos um plano de ação e definimos tarefas – tudo em conjunto com o paciente. Ah, claro! Porque a TCC é uma terapia colaborativa. Não, não tem solução mágica – você vai precisar arregaçar suas mangas e trabalhar comigo! 🙂

Tá, mas me explica esse nome…

Costumo brincar com meus pacientes que a TCC tem um nome complicado, pra explicar algo simples. O termo “cognitivo” refere-se aos seus pensamentos e “comportamental”… Sim, claro: a comportamentos! Essa teoria trabalha com a ideia de que nossos pensamentos são responsáveis pelas emoções que sentimos e, por sua vez, essas emoções geram os nossos comportamentos.

 Pensamento ➜ Emoção ➜ Comportamento

A maioria das pessoas procura a terapia quando algum comportamento seu está atrapalhando a sua vida. Ela pode estar incomodada por estar comendo demais, por brigas com um familiar, por não conseguir sair de casa… Todos esses comportamentos têm por trás uma crença, um pensamento. E, se o comportamento está desajustado, é porque esse pensamento está inadequado.

É aí que a TCC entra.

Ela ajuda as pessoas a identificarem esses pensamentos inadequados e a modificá-los, a fim de se sentirem melhor e alcançarem comportamentos mais funcionais. Como disse antes, a ênfase é resolver um problema e gerar mudança de comportamento.

Quer um exemplo?

Ana pensa “minha vida não tem solução”. Fica triste, ansiosa, e “ataca” a geladeira. O terapeuta de Ana irá ajudá-la a questionar esse seu pensamento: Será mesmo que sua vida não tem solução? Quais as provas reais que Ana tem, de que esse pensamento é verdadeiro? Se, juntos, eles encontrarem uma única possibilidade de melhorar a vida da moça, então está provado que seu pensamento não é realista – e precisa ser modificado. Quando Ana substituir esse pensamento por “minha vida pode ter solução”, ela ficará menos triste e ansiosa e, consequentemente, terá menos vontade de comer. É claro que, a partir daí, traçaremos objetivos para que Ana efetivamente melhore a sua vida.

Este é apenas um exemplo, mas podemos trabalhar em muitas frentes. Desde depressão até problemas conjugais, passando pelos citados transtornos alimentares, ataques de pânico, problemas de autoestima e muitos outros.

Espero que tenha conseguido mostrar pra vocês, de forma clara e objetiva, um pouquinho dessa abordagem que tanto me encanta. Deixem suas dúvidas e comentários!